sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Um Último Suspiro

Tinha os olhos embebidos em lágrimas, como se fossem fontes prestes a secar. Com a sinistra por sobre a fronte fez-se o pranto, copioso e salgado como a desilusão pela qual passara.
Eram 22 horas anunciava fortuitamente o relógio, vago e clamando por um simples fechar de olhos. Entretanto já era tarde e o gongo soara atrasado.
Com a empáfia dos que não se querem se dar por vencidos, pensara de que nada tivera culpa. O êxito da derrocada lhe deixara mais confuso, vituperando contra tudo e todos. Mas de nada adiantava, já se fazia noite.
O verbo não lhe vinha nítido , as emoções se lhe cruzavam e entrecruzavam por todos seus poros, naquele momento nada nem ninguém podia dar-lhe o que necessitava. Nem ele sabia ao certo o que buscava.
As persianas entreabertas deixavam escapar as luzes de outros prédios, que iluminavam a parede diagonalmente, criando um clima noir, em tons de cinza/preto e branco. As cinzas do incenso se encontravam ao lado do abajur tosco, que lhe fora dado.
Deitou-se esperando adormecer. As imagens não lhe saíam da cabeça, por mais que tentasse afugentá-las.
O telefone toca. Chama 4 vezes, mas ele não atende.
Não quer que ninguém saiba de sua acerba tristeza. 'As pessoas não sabem lidar com a tristeza alheia, e tampouco quero molestar alguém com meus pesares'. Ah, se tudo fosse mais fácil, pensara, que seriam das dificuldades?
Lembrou-se do primeiro amor sofrido, o primeiro tombo de bicicleta, o tratamento de canal que lhe molestara, a primeira briga na escola. Nada era comparado ao que sentia agora. O pranto já havia secado, mas mesmo assim, a garganta ainda doía, pungente!
Embalde lutava com todas as forças que teimavam em arrastá-lo ao âmago da dor. Queria afogar-se na tristeza, ao mesmo tempo que a rejeitava aos sufocos. Qualquer música não seria capaz de demonstrar-lhe o estado de ânimo, devido a prostração de seus sentimentos. Se conseguisse expressar de alguma maneira seus sentimentos...
Adormeceu, desiludido. E no onirismo responsável por seus atos mais tresloucados encontrou-se com ela. Estava linda, envolta em um cintilante vestido branco, com os cabelos esvoaçantes e a sorrir-lhe.
Tudo agora fazia sentido, nada tinha mais a temer. Ela o abraçou enternecidamente, como uma mãe o faz a um filho carente, afagou-lhe os cabelos castanhos e aproximou os lábios de seu ouvido. Nada disse, mas nesse momento ele soube. Tudo estava perdoado.
Como num quase despertar súbito, viu toda sua vida em um filme retrocesso, qual uma fábula inexistente. Lembrou-se do momento. O golpe no painel, a dor atinente. Estava perdoado, era o que bastava.
Despertou tranqüilo.

Um comentário:

Anônimo disse...

Prossiga escrevendo...vou voltar sempre pra ler mais.

beijos,